14 de agosto de 2015

IV - Incompletude




"Só você sabe quem eu sou,
só você sabe como é..."

Provavelmente consideram característica problemática aqueles mortais que não se reconhecem como tal o fato de que o ser humano é inerentemente incompleto e passa uma vida toda, às vezes, para descobrir-se assim. E é incrível como a raridade do encontro com alguém que tem essa consciência é capaz de deixar qualquer um sem saber o que fazer ou falar.

Este que escreve não é qualquer um, embora não seja alguém totalmente preparado (ninguém o é) para as emoções que a vida desvela. Mesmo assim, não escapei do encanto e da sensação extraordinária que sinto sempre que participo de uma acareação entre a arrogância da humanidade e com a incompletude do Um Amor. São sutis essas ocorrências, mas, por serem sutis, são indeléveis: não há como esquecer eventos em que uma mulher, de pouca idade, tem consciência de que muito lhe falta para chegar a um ponto que ainda não será o final.

Claro que não poderia ser o pensamento de todos os homens – muito menos das mulheres. Pessoas assim são escolhidas a dedo pelo Projetista. Todo ser humano nasce incompleto... e assim também morre. Quando criança, vamos descobrindo universos de coisas, muitas dessas coisas estavam dentro do próprio ser, mas precisava de um gatilho para que desabrochassem. E, já quando criança, uma dessas coisas que se dão a aparecer é a arrogância. Qualquer um é capaz de lembrar alguma situação em que se sentiu completo, capaz de tudo, mesmo criança. A diferença é que, quando criança, ao cairmos, aprendemos o que fazer para não cair mais. A idade chega, trazendo junto a ignorância da certeza de que existe um ponto de chegada. Sem se dar conta, vamos nos dando conta que as coisas das quais vamos nos apropriando vão se somando até preencher todos os espaços vazios. Pura arrogância!

Somos incompletos e sempre seremos. Nunca temos consciência disso. E, por incrível que pareça, há sempre uma razão para acreditarmos no divino. É divino que alguém tenha consciência da própria pequenez e de que a vida é uma eterna busca, mesmo quando pensamos que chegamos ao fim. Se não fosse sempre busca, um dia pararíamos e não teríamos para onde ir.

O Um Amor me mostrou que é possível saber já nessa vida que ela é incompleta e que a completude nos dizima aos poucos. Enquanto todos os demais se acham paladinos da vida, ela sabe muito bem que ela é só um ser pequenino neste mundo, quase uma hobbit (embora seja ela quem imagino quando penso em Lúthien, personagem mais bela do universo criado pelo meu filólogo favorito). Impossível não se apaixonar por tamanha sabedoria.

É a pseudocompletude que engendra a sensação de completo vazio. Ao mesmo tempo, é a grandeza de admitir a própria pequenez que traz uma sensação de estar-se cheio de tantas coisas: paz, alegria, sonhos... Combustíveis da eterna busca!

É preciso agradecer por isso. É raro. Único à minha vista. Por isso é Um Amor. 

III - Liberdade



"Meu coração é um porta-aviões 
perdido no mar esperando alguém pousar"

A tendência que o mundo tem é de acreditar em tudo ou de acreditar em nada. Ingenuidade e ceticismo são dois lados de uma moeda negra pela qual não podemos brigar.

Advogo que não podemos ser certos de qualquer coisa, afinal os dias recomeçam todo dia. Ingenuidade e fé cega caminham de mãos dadas. Ceticismo e dureza de coração morrem de pés juntos. Sobre o amor doentios ambos.

A ingenuidade no amor leva ao nada da mesma forma que o nada leva a lugar algum. Quando se acredita em tudo e a tudo dá-se o nome de amor já não é mais um risco, mas é factual a direção infeliz que se há tomado (pedi essa construção bem aqui do espanhol, não sei o que acho dela no português!). Nem todo latido de cães na alta madrugada é contra um perigo, pode ser apenas um teste, ou solidariedade – já percebi que os cachorros são solidários com seus demais espécimes, latem com a mesma força quando um puxa o coro. Todo cuidado é pouco para não se crer no incrível.

O ceticismo no amor é igualmente doloroso e, como a primeira, leva para o mesmo nada do outro, demorando o mesmo tanto de tempo para que esse nada se revele. Embora seja compreensível que alguns corações se fechem a fim de manter resguardo após pomposa treva, é questão de tempo perceber que uma porta sempre trancada guarda alguma coisa valiosa! Todo cuidado é pouco para se crer no incrível.

Entre ingenuidade e ceticismo está a liberdade. E foi essa liberdade que gerou o Um Amor. Sagacidade é a velocidade que se tem de compreender o quanto algo é necessário na vida e humildade é reconhecer a hora certa de descosturar a roupa toda para tecê-la do início com mais atenção, mesmo que seja preciso mudar a corda linha. E o Um Amor foi sagaz e humilde: deu fim ao que não começou e começou o que não pressupõe fim. Manifestar a liberdade é algo que requer tempo para que se compreenda que às vezes o que estivemos a chorar pode continuar nos fazendo chorar, mas de rir, sem deboche, graças à certeza de que se pôde ir além!

Amor mesmo é quase dor, mas não maltrata. Amor que se preza chora, mas não mata o riso. Amor é sempre verdadeiro, nunca é pela metade. Sentiu dor, chorou, duvidou, mas nunca desistiu porque foi livre para viver, exonerar velhos limites e compreender os novos e, por fim, tornar-se o Um Amor. E foi livre para libertar o Um Eu.

II - Concretude



"A gente vive assim: sempre acabando o que não tem fim..."

Sempre me intrigou ao extremo o fato de que “nuvem” é um substantivo concreto. Ele é tão leve. Tanto o significante quanto o referente. Quase não fazemos esforço algum para pronunciar essa palavra. E o que dizer das nuvens lá do céu. Na verdade, a meteorologia me refutaria, sem muito esforço, dizendo que as nuvens são sim muito pesadas, logo eu devolveria fazendo a a seguinte pergunta: o que pesa mais: um quilograma de nuvem ou um quilograma de cimento? Para além da palavra “nuvem” em si, me intriga muito mais a subclassificação dos substantivos em concretos e abstratos. Nessa história, amor virou substantivo abstrato. Como assim, se amor é uma palavra tão pesada, forte, indestrutível e palpável? Não entendo vocês, normatizadores!

O Um Amor, diferente do amor que é substantivo abstrato, é substantivo próprio e talvez seja por causa das propriedades desse nome próprio que eu me confunda tanto com o que venha ou não a ser o amor abstrato.

Parece-me que abstrato é o amor sem peso, o amor que não tem gravidade, que vive nas nuvens. Opa, as nuvens são concreto! Meu ponto é que amor sem agrura sofre de sobrecarga iluso-aparenciológica. Explico: não requer tanta busca o vislumbre de abstrações tais que nos fazem pensar que o nosso conceito de amor é equivocado. Pessoas cuja aparente felicidade é a mão esmagadora de um estúpido alardeio.

Que me faz julgar o amor dos outros? Bem, não julgo o amor de ninguém, julgo a abstração desses amores. Amor não é um riso sem fim nem uma alegria indescritível. Amor não é nada que deixe a boca sem dizer palavra e as pernas bambas. Isso pode ser fome, êxtase ou tantos outros sintomas. Amor é concreto. Duro. Forte. Inconcusso – pra usar um adjetivo que eu ainda não usei.

Para ser inabalável há que ser pesado e de ter o couro grosso, e para chegar aí é preciso muito choro e ranger de dentes. São 7 os infernos de Dante e depois deles a vitória. Alguém, que eu não vou lembrar quem, disse que se começamos a atravessar um inferno, não podemos parar até chegar do outro lado. Calma, calma, calma! Não estou dizendo que o amor é o inferno, estou dizendo que amor é mais concreto que qualquer sofrimento.

Um nó feito na garganta por uma tristeza é algo concreto. Os olhos inchados e cansados pelo choro são concretos. A dor no peito por uma queda monumental é concreta! E amor é ainda mais concreto que tudo isso.

O amor demanda rigidez, afinal é uma construção, necessita de alicerce! Alicerce abstrato não sustenta amor concreto!

Já elenquei meu objeto de estudo e agora instancio o meu método: meu método é o da observação da concretude do Um Amor para bem estudá-lo. Para o plano das ideias devem ficar passado e futuro, por isso essa observação é sincrônica. E hipóteses, pelo seu teor abstrato, também são dispensáveis. E dispensáveis também hão de ser as incontáveis coisas que desservem, que não somam, pois não pesam, que não engrandecem, pois não sustentam. Amor abstrato é coisa da esquerda! Nem o ar é impalpável, imagine o amor que fá-lo movimentar-se...

I - Unicidade



"Sempre que eu preciso me desconectar 
todos os caminhos levam ao mesmo lugar..."

Essa história de “o Um Amor” é claramente uma referência ao anel destruído por Frodo (ou seria pelo Sméagol) na Montanha da Perdição, terra inóspita a sudeste do Condado. Ok, parei! O caso é que é interessante esse uso definido do artigo indefinido. No caso do amor, então, faz todo o sentido do mundo.

Bem, no inglês, língua em que meu filólogo favorito escreveu a obra do milênio, diz-se “the One Ring”. Essa língua, diferentemente do português, diferencia o numeral do artigo indefinido. Ambos têm a mesma forma na última flor do lácio, “um”, enquanto no inglês há o “one” para o primeiro e o “a/an” para o segundo. Então, aquilo que serve para dar ideia de unicidade no inglês acaba indeterminando e indefinindo em português. Evidentemente, essa operação de indeterminação não se verifica, uma vez que sabemos bem a qual anel estamos nos referindo quando dizemos “o Um Anel” (as iniciais maiúsculas dão o último golpe na possível ambiguidade). Mas vale a pena divagar um pouco sobre a (in)determinação do amor.

O amor de qualquer um é indefinido até que se defina, indeterminado até que se determine, não específico até que se especifique. Estou usando os três termos como sinônimos para algo que eu tenho medo de que minha argumentação faça confundir com destino. Não quero entrar na pergunta-sem-resposta e resposta-sem-pergunta se há destino e se amores são predestinados, contudo não é pouca audácia dizer que muito mais do que o amor com o qual sonhei é tão menos extraordinário o amor com o qual nunca sonhei.

É muito fácil ser surpreendido: a imaginação antecipa coisas e essas antecipações são facilmente superadas ou sucumbidas. Às vezes o que acontece é mais do que se imagina, às vezes é menos. Nunca é a mesma coisa. Embora a mente seja a placa de vídeo mais perfeita que existe, a materialidade dos fatos observados a olhos nus e sentidas a corpos unidos é um ponto decisivo para a construção final da sensação. E parece que o tempo é o mestre de obras! O Projetista não cabe nessa teoria, mas é a Ele que precisamos saber agradecer.

Não resta, ou ao menos não deveria restar, dúvida de que há um certo embaralhamento no começo das coisas até que o amor faça algum sentido. Na verdade, nunca o compreendemos 100%, afinal somos humanos e talvez uma das coisas que nos defina como tal seja o fato de, mesmo não compreendendo, continuar tentando compreender o que é o amor. Se fica alguma dúvida sobre a hora certa de amar e de chamar algo de amor, é porque estão sobrando certezas numa terra onde há descoberta todos os dias. Para amar há que se indeterminar primeiro, aprender a dizer “não sei’, conformar-se que o que se sabe é pouco, indefinido, fragmentado. O amor é cola que há, um dia, de aglutinar todos esses fragmentos.

É, então, que parece inteligível uma das falas de Gandalf a Frodo: “há outras forças agindo neste mundo, além da vontade do mal. Bilbo estava destinado a encontrar o anel e você também estava designado a possui-lo. E esse é um pensamento encorajador”. Há alguma coisa que faz duas entidades serem unidas, assim o que é aparentemente indeterminado aos poucos se revela algo determinado desde sempre. O que antes nunca existiu passa a existir desde e para sempre. Não faz muito sentido, a princípio, mas toma contornos críveis quando pensamos que não pensamos em antes do começo e depois do fim do amor. Delegamos toda a nossa espiritualidade para a tarefa de destituir a máxima de que todo começo tem seu fim, considerando que, na verdade, não existe começo e que o que há é o que sempre houve.

Mais uma contradição se interpõe aqui e, com ela, eu termino essa parte: se é indeterminado para determinar-se, sendo que sempre foi determinado, como posso propor uma Teoria Geral do Um Amor? Bem, aqui é preciso ler “o Um Amor” da mesma forma que “o Um Anel”: é um único, um apenas. E é geral porque as teorias gerais devem explicar coisas universais... E esse Um Amor é o Universo que me contém. Exatamente por isso é impossível dizer que ele é meu precioso, pois eu é que pertenço a ela. A Teoria é Geral do Um Amor, meu antiobjeto de estudo aqui, então, se chama Amanda: gerúndio do Amor.

Teoria Geral do Um Amor



"A medida de amar é amar sem medir..."

Quanto mais a contagem dos meus dias ganha dígitos e quanto mais eu penso que meus cabelos estão ficando brancos (embora isso não seja apenas pensamento), menos isso faz sentido pra mim. Acontece que tem algo estranho nessa frase atribuída ao santo que mais presto devoção: se meço o amor, então não é amor, correto? Então, se amo com todas as minhas forças, significa que não estou amando?

Questões sintático-semânticas à parte, o fato é que sempre me intrigou a singularidade dessa frase tão suavemente caótica (desculpa o paradoxal costume de apelar a paradoxos de sempre [desculpa a mania sempre néscia de apelar a parêntesis]), pois de modo extremamente objetivo ela apresenta toda a problemática da raça humana. E o quanto esse lance de raça humana é um enigma deve entrar também nessa conta de intrigas causadas por sintagmas e/ou sentenças.

Amar com todas as forças é dizer que existe algo cuja força não é a mesma. Há uma metragem aqui. Se houvesse um amôrmetro, saberíamos a diferença entre um amor e outro. Sempre me perseguiu uma ideia de que, quando algo é amor, ele se torna imensurável, daí meu pensamento de que amar é mais difícil do que parece.

No tocante à raça humana, intriga-me a impossibilidade de medir também o nível de subjetividade do que é ser humano. Já pensei, repensei e des(ou dis-)pensei e ainda não concluí o que é que venha a ser o traço definidor de humano. O campo semântico deveria ser menos vasto: há animais que são mais humanos que pessoas e pessoas mais desumanas que animais. Então o que têm em comum todos os humanos? Um professor meu de filosofia dizia que era o “húmus” – ele argumentava que viemos da lama e para a lama voltaremos. Questões latinas também à parte, lama também é incontável.

Há uma semelhança, portanto, nas coisas do mundo e, ao que parece, é a impossibilidade de contar que iguala todas essas coisas. Mas venha quem vier, não sei se troco esse pensamento: amor não é desse mundo. Claro, o amor está neste mundo, mas ele não é daqui. Veio de presente de um infinito do qual somos só amadores.

Deixe-me, então, ao longo de alguns escritos tentar mostrar o universo de caracteres de onde eu acho que nasceu o amor... Ele tem nome, idade, peso e todas as outras exigências do mundo físico. Ele é ela. E ela é o céu. Amanda, 24 no desde as 0h, 55 kg (talvez mais daqui pro fim do dia)...

Na tentativa de não medir o incontável, vou apenas contar o que já consigo associar a significantes... Bem-vinda à teoria geral do Um Amor!