14 de agosto de 2015

III - Liberdade



"Meu coração é um porta-aviões 
perdido no mar esperando alguém pousar"

A tendência que o mundo tem é de acreditar em tudo ou de acreditar em nada. Ingenuidade e ceticismo são dois lados de uma moeda negra pela qual não podemos brigar.

Advogo que não podemos ser certos de qualquer coisa, afinal os dias recomeçam todo dia. Ingenuidade e fé cega caminham de mãos dadas. Ceticismo e dureza de coração morrem de pés juntos. Sobre o amor doentios ambos.

A ingenuidade no amor leva ao nada da mesma forma que o nada leva a lugar algum. Quando se acredita em tudo e a tudo dá-se o nome de amor já não é mais um risco, mas é factual a direção infeliz que se há tomado (pedi essa construção bem aqui do espanhol, não sei o que acho dela no português!). Nem todo latido de cães na alta madrugada é contra um perigo, pode ser apenas um teste, ou solidariedade – já percebi que os cachorros são solidários com seus demais espécimes, latem com a mesma força quando um puxa o coro. Todo cuidado é pouco para não se crer no incrível.

O ceticismo no amor é igualmente doloroso e, como a primeira, leva para o mesmo nada do outro, demorando o mesmo tanto de tempo para que esse nada se revele. Embora seja compreensível que alguns corações se fechem a fim de manter resguardo após pomposa treva, é questão de tempo perceber que uma porta sempre trancada guarda alguma coisa valiosa! Todo cuidado é pouco para se crer no incrível.

Entre ingenuidade e ceticismo está a liberdade. E foi essa liberdade que gerou o Um Amor. Sagacidade é a velocidade que se tem de compreender o quanto algo é necessário na vida e humildade é reconhecer a hora certa de descosturar a roupa toda para tecê-la do início com mais atenção, mesmo que seja preciso mudar a corda linha. E o Um Amor foi sagaz e humilde: deu fim ao que não começou e começou o que não pressupõe fim. Manifestar a liberdade é algo que requer tempo para que se compreenda que às vezes o que estivemos a chorar pode continuar nos fazendo chorar, mas de rir, sem deboche, graças à certeza de que se pôde ir além!

Amor mesmo é quase dor, mas não maltrata. Amor que se preza chora, mas não mata o riso. Amor é sempre verdadeiro, nunca é pela metade. Sentiu dor, chorou, duvidou, mas nunca desistiu porque foi livre para viver, exonerar velhos limites e compreender os novos e, por fim, tornar-se o Um Amor. E foi livre para libertar o Um Eu.

II - Concretude



"A gente vive assim: sempre acabando o que não tem fim..."

Sempre me intrigou ao extremo o fato de que “nuvem” é um substantivo concreto. Ele é tão leve. Tanto o significante quanto o referente. Quase não fazemos esforço algum para pronunciar essa palavra. E o que dizer das nuvens lá do céu. Na verdade, a meteorologia me refutaria, sem muito esforço, dizendo que as nuvens são sim muito pesadas, logo eu devolveria fazendo a a seguinte pergunta: o que pesa mais: um quilograma de nuvem ou um quilograma de cimento? Para além da palavra “nuvem” em si, me intriga muito mais a subclassificação dos substantivos em concretos e abstratos. Nessa história, amor virou substantivo abstrato. Como assim, se amor é uma palavra tão pesada, forte, indestrutível e palpável? Não entendo vocês, normatizadores!

O Um Amor, diferente do amor que é substantivo abstrato, é substantivo próprio e talvez seja por causa das propriedades desse nome próprio que eu me confunda tanto com o que venha ou não a ser o amor abstrato.

Parece-me que abstrato é o amor sem peso, o amor que não tem gravidade, que vive nas nuvens. Opa, as nuvens são concreto! Meu ponto é que amor sem agrura sofre de sobrecarga iluso-aparenciológica. Explico: não requer tanta busca o vislumbre de abstrações tais que nos fazem pensar que o nosso conceito de amor é equivocado. Pessoas cuja aparente felicidade é a mão esmagadora de um estúpido alardeio.

Que me faz julgar o amor dos outros? Bem, não julgo o amor de ninguém, julgo a abstração desses amores. Amor não é um riso sem fim nem uma alegria indescritível. Amor não é nada que deixe a boca sem dizer palavra e as pernas bambas. Isso pode ser fome, êxtase ou tantos outros sintomas. Amor é concreto. Duro. Forte. Inconcusso – pra usar um adjetivo que eu ainda não usei.

Para ser inabalável há que ser pesado e de ter o couro grosso, e para chegar aí é preciso muito choro e ranger de dentes. São 7 os infernos de Dante e depois deles a vitória. Alguém, que eu não vou lembrar quem, disse que se começamos a atravessar um inferno, não podemos parar até chegar do outro lado. Calma, calma, calma! Não estou dizendo que o amor é o inferno, estou dizendo que amor é mais concreto que qualquer sofrimento.

Um nó feito na garganta por uma tristeza é algo concreto. Os olhos inchados e cansados pelo choro são concretos. A dor no peito por uma queda monumental é concreta! E amor é ainda mais concreto que tudo isso.

O amor demanda rigidez, afinal é uma construção, necessita de alicerce! Alicerce abstrato não sustenta amor concreto!

Já elenquei meu objeto de estudo e agora instancio o meu método: meu método é o da observação da concretude do Um Amor para bem estudá-lo. Para o plano das ideias devem ficar passado e futuro, por isso essa observação é sincrônica. E hipóteses, pelo seu teor abstrato, também são dispensáveis. E dispensáveis também hão de ser as incontáveis coisas que desservem, que não somam, pois não pesam, que não engrandecem, pois não sustentam. Amor abstrato é coisa da esquerda! Nem o ar é impalpável, imagine o amor que fá-lo movimentar-se...

I - Unicidade



"Sempre que eu preciso me desconectar 
todos os caminhos levam ao mesmo lugar..."

Essa história de “o Um Amor” é claramente uma referência ao anel destruído por Frodo (ou seria pelo Sméagol) na Montanha da Perdição, terra inóspita a sudeste do Condado. Ok, parei! O caso é que é interessante esse uso definido do artigo indefinido. No caso do amor, então, faz todo o sentido do mundo.

Bem, no inglês, língua em que meu filólogo favorito escreveu a obra do milênio, diz-se “the One Ring”. Essa língua, diferentemente do português, diferencia o numeral do artigo indefinido. Ambos têm a mesma forma na última flor do lácio, “um”, enquanto no inglês há o “one” para o primeiro e o “a/an” para o segundo. Então, aquilo que serve para dar ideia de unicidade no inglês acaba indeterminando e indefinindo em português. Evidentemente, essa operação de indeterminação não se verifica, uma vez que sabemos bem a qual anel estamos nos referindo quando dizemos “o Um Anel” (as iniciais maiúsculas dão o último golpe na possível ambiguidade). Mas vale a pena divagar um pouco sobre a (in)determinação do amor.

O amor de qualquer um é indefinido até que se defina, indeterminado até que se determine, não específico até que se especifique. Estou usando os três termos como sinônimos para algo que eu tenho medo de que minha argumentação faça confundir com destino. Não quero entrar na pergunta-sem-resposta e resposta-sem-pergunta se há destino e se amores são predestinados, contudo não é pouca audácia dizer que muito mais do que o amor com o qual sonhei é tão menos extraordinário o amor com o qual nunca sonhei.

É muito fácil ser surpreendido: a imaginação antecipa coisas e essas antecipações são facilmente superadas ou sucumbidas. Às vezes o que acontece é mais do que se imagina, às vezes é menos. Nunca é a mesma coisa. Embora a mente seja a placa de vídeo mais perfeita que existe, a materialidade dos fatos observados a olhos nus e sentidas a corpos unidos é um ponto decisivo para a construção final da sensação. E parece que o tempo é o mestre de obras! O Projetista não cabe nessa teoria, mas é a Ele que precisamos saber agradecer.

Não resta, ou ao menos não deveria restar, dúvida de que há um certo embaralhamento no começo das coisas até que o amor faça algum sentido. Na verdade, nunca o compreendemos 100%, afinal somos humanos e talvez uma das coisas que nos defina como tal seja o fato de, mesmo não compreendendo, continuar tentando compreender o que é o amor. Se fica alguma dúvida sobre a hora certa de amar e de chamar algo de amor, é porque estão sobrando certezas numa terra onde há descoberta todos os dias. Para amar há que se indeterminar primeiro, aprender a dizer “não sei’, conformar-se que o que se sabe é pouco, indefinido, fragmentado. O amor é cola que há, um dia, de aglutinar todos esses fragmentos.

É, então, que parece inteligível uma das falas de Gandalf a Frodo: “há outras forças agindo neste mundo, além da vontade do mal. Bilbo estava destinado a encontrar o anel e você também estava designado a possui-lo. E esse é um pensamento encorajador”. Há alguma coisa que faz duas entidades serem unidas, assim o que é aparentemente indeterminado aos poucos se revela algo determinado desde sempre. O que antes nunca existiu passa a existir desde e para sempre. Não faz muito sentido, a princípio, mas toma contornos críveis quando pensamos que não pensamos em antes do começo e depois do fim do amor. Delegamos toda a nossa espiritualidade para a tarefa de destituir a máxima de que todo começo tem seu fim, considerando que, na verdade, não existe começo e que o que há é o que sempre houve.

Mais uma contradição se interpõe aqui e, com ela, eu termino essa parte: se é indeterminado para determinar-se, sendo que sempre foi determinado, como posso propor uma Teoria Geral do Um Amor? Bem, aqui é preciso ler “o Um Amor” da mesma forma que “o Um Anel”: é um único, um apenas. E é geral porque as teorias gerais devem explicar coisas universais... E esse Um Amor é o Universo que me contém. Exatamente por isso é impossível dizer que ele é meu precioso, pois eu é que pertenço a ela. A Teoria é Geral do Um Amor, meu antiobjeto de estudo aqui, então, se chama Amanda: gerúndio do Amor.

Teoria Geral do Um Amor



"A medida de amar é amar sem medir..."

Quanto mais a contagem dos meus dias ganha dígitos e quanto mais eu penso que meus cabelos estão ficando brancos (embora isso não seja apenas pensamento), menos isso faz sentido pra mim. Acontece que tem algo estranho nessa frase atribuída ao santo que mais presto devoção: se meço o amor, então não é amor, correto? Então, se amo com todas as minhas forças, significa que não estou amando?

Questões sintático-semânticas à parte, o fato é que sempre me intrigou a singularidade dessa frase tão suavemente caótica (desculpa o paradoxal costume de apelar a paradoxos de sempre [desculpa a mania sempre néscia de apelar a parêntesis]), pois de modo extremamente objetivo ela apresenta toda a problemática da raça humana. E o quanto esse lance de raça humana é um enigma deve entrar também nessa conta de intrigas causadas por sintagmas e/ou sentenças.

Amar com todas as forças é dizer que existe algo cuja força não é a mesma. Há uma metragem aqui. Se houvesse um amôrmetro, saberíamos a diferença entre um amor e outro. Sempre me perseguiu uma ideia de que, quando algo é amor, ele se torna imensurável, daí meu pensamento de que amar é mais difícil do que parece.

No tocante à raça humana, intriga-me a impossibilidade de medir também o nível de subjetividade do que é ser humano. Já pensei, repensei e des(ou dis-)pensei e ainda não concluí o que é que venha a ser o traço definidor de humano. O campo semântico deveria ser menos vasto: há animais que são mais humanos que pessoas e pessoas mais desumanas que animais. Então o que têm em comum todos os humanos? Um professor meu de filosofia dizia que era o “húmus” – ele argumentava que viemos da lama e para a lama voltaremos. Questões latinas também à parte, lama também é incontável.

Há uma semelhança, portanto, nas coisas do mundo e, ao que parece, é a impossibilidade de contar que iguala todas essas coisas. Mas venha quem vier, não sei se troco esse pensamento: amor não é desse mundo. Claro, o amor está neste mundo, mas ele não é daqui. Veio de presente de um infinito do qual somos só amadores.

Deixe-me, então, ao longo de alguns escritos tentar mostrar o universo de caracteres de onde eu acho que nasceu o amor... Ele tem nome, idade, peso e todas as outras exigências do mundo físico. Ele é ela. E ela é o céu. Amanda, 24 no desde as 0h, 55 kg (talvez mais daqui pro fim do dia)...

Na tentativa de não medir o incontável, vou apenas contar o que já consigo associar a significantes... Bem-vinda à teoria geral do Um Amor!

28 de maio de 2015

Cidade Em Chamas


"Bring your daughter, bring your daughter
to the slaughter... let her go, let her go, 
let her go!"

De ontem pra hoje as rodas de conversa têm exigido dos interlocutores um mínimo de palavra sobre o acontecimento chocante da vez: cinco rapazes violentaram (espero ter feito a escolha lexical mais objetiva, para não cair na listagem de ações por eles feitas a fim de dar uma ideia do que houve) quatro meninas na cidade de Castelo do Piauí, estado do Piauí.

Das moças, futuras mulheres, não interessa a idade: a dor é a mesma... incalculável! Dos responsáveis pelo crime (resguardar-me-ei doravante ao direito de classificá-los ou não como humanos), só um tem mais do que 18 anos, todos os outros são menores de idade. Importa suas idades na medida em que podemos vislumbrar o que há de acontecer.

O que se sucederá é o mais do mesmo: fogueira aos menores!; até quando isso vai acontecer?!; país sem lei!; seria melhor deixar o povo, revoltado, fazer a própria justiça!; vão ficar só algum tempo detidos numa tentativa sempre frustrada de ressocialização e logo estarão livres para fazer tudo outra vez!; pena de morte!; prisão perpétua!...

Eu sei que eles têm razão... mas a razão é só o que eles têm.

Já defendi em outra ocasião a não redução da maioridade penal. Não mudei de ideia (ainda). E estou tão revoltado quanto qualquer outro com essa situação – e todos nós não fazemos ideia da dor pela qual passam as famílias das garotas... muito menos a dor delas próprias.

Outros ainda serão aqueles que esbravejarão: mas o que essas meninas queriam naquele lugar tão ermo sozinhas?!; quem procura acha!; se tivessem em casa estudando, não teria acontecido nada disso!... (não ouso continuar).

Eu sei que eles têm razão... mas a razão é só o que eles têm.

As palavras faltam, as revoltas sobram, os motivos valem para ambos os lados, e sempre tem gente que se coloca de um lado ou outro. Sempre aparece um advogado que, na busca por status e reconhecimento no meio jurídico – acreditem, ser responsável por uma vitória no tribunal diante de tantos fatos contra os criminosos é merecedor de aplausos para muitos, respalda a habilidade de tal magistrado -, há de defender os autores do incaracterizável crime. Como eu disse, sempre aparece UM advogado. Não são todos.

E, de modo geral, no país em que político é celebridade e artista é marginal, continuamos sem nos questionar sobre fatos que realmente importam. Continuamos preferindo discutir a vulgarização da imagem feminina e a redução da maioridade penal, como se fossem só esses os problemas. Continuamos sendo excelentes analistas, com respostas certeiras a perguntas de sim ou de não, dubitáveis, induzíveis. Continuamos incertos e pávidos sem saber se é justo trazer ao mundo crianças para viverem essa guerra que nunca termina. Viver tem sido sacrifício, mesmo tendo sido tantos os que se sacrificaram por nós.

Questiono-me sobre os sonhos das garotas, sobre o que as divertia, sobre o que as emocionava, sobre o que as fazia felizes... Não importa o que eram, jamais serão os mesmos!

Questiono-me sobre os autores da monstruosidade... será se tinham sonhos?!

Duro nó na garganta que não afrouxa.

Que as chamas venham, pois elas devem ser mais belas que isso aqui.