22 de outubro de 2024

“A bênção, João de Deus...”



O dia em que a Igreja celebra São João Paulo II (que não é o dia da sua morte, mas o dia de sua primeira missa como papa) é um dia saudoso demais para quem viveu, ainda que pouco, do seu pontificado. Deus não me mandou pra cá antes de 1980, então não tive a alegria de vê-lo pessoalmente em sua passagem por Teresina. Pelos testemunhos que ouço, esse deve ter sido o dia mais importante da história de nossa cidade. 


Mas acompanhei pela TV a sua visita ao Brasil em 1997. Eu só tinha 4 anos, mas tenho a lembrança nítida demais de todo mundo em casa preocupado em gravar numa fita K7, comprada pelo meu pai com antecedência exclusivamente para aquele fim, a cobertura da Rede Vida, da Manchete ou de onde o sinal estivesse bom. Depois disso, perdi a conta de quantas vezes minha mãe ou meu pai colocavam essa fita pra assistir, esse último sempre derramava uma lágrima ou outra quando começava a música “Porque Ele vive”. São João Paulo II morreu no dia 02/04/2005; meu pai, dia 03/04/2005. 


Outra que já era devota dele muito antes de sua canonização era minha avó. Tinha um quadro enorme dele no quarto, e diante dele vivia rezando, pedindo sua intercessão. Enfim, a memória de São João Paulo II não é a memória de alguém distante que morreu e virou santo. É, na verdade, a memória de alguém quase da família que já era santo quando estava aqui presente fisicamente entre nós e não cansava de nos convidar a não ter medo de sermos santos também, pois é Cristo quem nos convida e nos dá força para tal. 


O que acho mais engraçado é: todo ano tenho uma dificuldade danada para escrever algo neste dia, porque antes, durante e depois da escrita sou sempre atrapalhado pelas lágrimas nos olhos: lágrimas de saudade, mas também lágrimas de gratidão pela esperança que Deus semeou e, através de São João Paulo II, rega em nosso coração. 


São João Paulo II, rogai por nós!

11 de setembro de 2024

23 do 11


O horror deu o recado a esse símbolo do Ocidente e mesmo hoje, 23 anos depois, ainda tem gente preocupada com a expansão do "imperialismo estadunidense", com a sede dos EUA de dominarem o mundo. A verdade é que, sem os EUA, o mundo livre ja teria caído. E vamos seguir vendo os torcedores da China, da Rússia e do Hamas nas universidades, nas artes e na imprensa, pois esses sim são modelos de civilização e de desenvolvimento! A propósito, lá os defensores da liberdade são tratados mais adequadamente, não é mesmo?

31 de agosto de 2024

coneXões

Essa história de suspensão do Twitter/X me lembrou o ano de 2011, quando participei das manifestações contra o aumento da passagem de ônibus em Teresina. A exemplo do que aconteceu em todo o mundo, as manifestações foram praticamente todas organizadas e propagadas pelo Twitter. Foi uma ferramenta importante para a juventude, que é quem tem mais energia para a luta, impedir que se aumentassem 20 centavos na passagem. Hoje, uma década depois, a juventude, que trocou o Twitter pelo TikTok, assistiu durante 4 anos a uma prefeitura defecar para o transporte coletivo! Se você não vê conexão, você precisa abrir o olho!

 

Outra coisa para a qual você precisa abrir o olho é para o fato de que o banimento do Twitter/X é a ponta do iceberg do controle da informação. Quem controla a comunicação controla mentes, almas, vidas e, claro, o dinheiro! A morte do Silvio Santos foi um bom momento para lembrar que veículos de comunicação, como qualquer outro negócio, como Sauron, desejam “acima de tudo o poder”!

 

"O que tem a ver o Silvio Santos aqui? Você não era fã dele?". Era não. Sou. E ele sempre deixou claro que ele, diferentemente dos demais, era um artista, um comunicador e um empresário. Ao contrário, os outros todos são apenas empresários que usam comunicadores e artistas para o objetivo comum a todos os empresários comunistas ou capitalistas: enriquecer. O exemplo perfeito disso é a Globo que comemorou 123 milhões de espectadores alcançados com a cobertura da morte e as homenagens ao Senor Abravanel. Oportunismo? Claro! Postura de abutres? Sempre!

 

A morte do Silvio Santos é elucidativa! Sabe aquela história que ouvimos repetida de que o Silvio criou o almoço de domingo com a família reunida assistindo o seu programa? Isso tinha se tornado mera memória afetiva porque os smartphones, as mídias digitais e a internet tiraram a TV do centro da vida das pessoas. Compare o que era assistir a um programa como o BBB 20 anos atrás e como é hoje. Para se ter uma ideia, às vésperas do banimento, o Boninho chegou responder uma postagem do próprio Elon Musk, oferecendo ajuda com a questão do Twitter/X, afinal o Twitter/X fora do ar durante o BBB é algo relativamente ruim para os negócios...

 

Mas o negócio bilionário chamado TV não pode simplesmente acabar. Tem que sobreviver e usar a Internet a seu favor. E há mentes brilhantes reinventando, refazendo estratégias, pensando a longo prazo. É na esteria disso que em 2025 iniciam-se os trabalhos da TV 3.0: união da TV com a internet. Sabe as propagadas de sapato que você vê no Instagram depois de falar pra alguém que estava precisando de um calçado novo? Isso vai começar a acontecer na TV, que agora é digital e logo mais será totalmente interativa. O anúncio que te redirecionava do Instagram pra Amazon agora vai aparecer na hora da prova do líder direto na tua TV.

 

O custo dessa transição é altíssimo. Envolve não apenas o investimento em tecnologia (dinheiro nas mãos de desenvolvedores), como também a mudança na legislação vigente (dinheiro na mão de políticos). Não sei se você curte futebol, mas já se deu conta da quantidade de placas de publicidade, dos patrocínios nas camisas dos jogadores e das propagandas nos intervalos com sites de apostas, os tais “bets”? Pois é... Isso tem TUDO a ver com o banimento do Twitter/X.

 

A Globo fechou parceria com a MGM, maior empresa do ramo de apostas. Eis a fonte dos recursos: nenhum centavo tirado do próprio bolso, financiamento vindo direto do bolso do povão, que é quem mais consome sites de aposta, na esperança de enriquecer “pra ontem”. Rico não aposta? Claro: na Bolsa de Valores, onde o ganho é “pra amanhã”.


Mas e o Twitter/X? Ora, o Twitter/X é uma ferramenta utilizada por mais de 20 milhões de pessoas que são capazes de ter informação de qualquer lugar do mundo, a qualquer hora. O usuário do Twitter é um perigo maior do que o usuários de Instagram, Facebook e TikTok, pois naquela rede o entretenimento é secundário. O principal sempre foi a informação, os bastidores e, o melhor de tudo, o contato direto com a fonte primária, sem a intermediação de um veículo de imprensa, sem a intermediação dos jornalistas. Enquanto eu escrevia esse texto a famosa jornalista Andréia Sadi trancava as suas publicações no Twitter/X. Pois é... eles continuarão acessando no sigilo (por isso o perfil trancado) informações de diferentes lugares do mundo para filtrar aquilo que passarão a nós, reféns do que passar pelo filtro da edição de empresas como a Globo. O cidadão comum volta ao seu status de consumidor do que a redação resolveu que é verdade. Tem poder mais saboroso do que esse para uma empresa de comunicação?

 

O cálculo é simples: no caso do jogo de futebol, da novela e do BBB, o Twitter/X funcionava como impulsionador, convidava as pessoas a conversar sobre esses programas, gerando mais audiência, consequentemente mais patrocínio, consequentemente mais lucro. Por outro lado, no caso das notícias, o Twitter/X rivalizava, aliás, superava os telejornais e os programas de opinião dos veículos tradicionais. Twitter/X fora da jogada, as empresas voltam a ter o monopólio. Fim de papo, sem direito a VAR.

 

Enfim... Adeus Twitter/X, e junto mais uma ferramenta que dava poder demais a nós, meros peões desse tabuleiro cujo Rei segue sendo um pequeno grupo que se reúne a portas fechadas para decidir nossos destinos por nós, nossas preferências por nós, nossa liberdade por nós. E eu já ia me esquecendo das nossas esperanças, que estão nos jovens dançando no TikTok e fazendo memes no Facebook, Instagram e nos Threads. Lá não tem informações falsas, nem discurso de ódio nem qualquer outra coisa que o governo peça para o Zuckerberg censurar.

19 de agosto de 2024

A criação da Saudade - RIP Silvio Santos

A linguagem é mesmo uma maravilha! É através dela que comunicamos, que realizamos, que trabalhamos, que compreendemos, que sonhamos, que criamos, que emocionamos, que amamos, enfim, que nos encontramos uns com os outros...


De ontem para hoje, fiquei pensando no que mais profundamente há de comum entre um vendedor ambulante, que sai de casa carregando sua mercadoria na esperança de vender o máximo possível para levar de volta para casa o mínimo de dignidade para sua família, e um grande empresário, criatura de negócios, que movimenta milhões ao vender e/ou comprar marcas, ações na bolsa de valores, etc. Seria o fato de ambos venderem algo? Sim, todos vendemos algo. Mas a profundidade da união que queria encontrar não era essa da finalidade do que fazemos.

 

Pensei, calculei, raciocinei e concluí: o vendedor, o empresário, o artista, o esportista, o cientista, o professor, o jornalista, o político, o médico, o advogado, o cara que vende arte na praia, enfim, qualquer projeto de vida que você pensar agora terá se realizado através do uso da linguagem. É ela que nos une!

 

Sabe o que faz uma pessoa que foi vendedor, empresário, artista e comunicador ser a maior perda que os brasileiros sentem hoje? O tanto que ele soube usar a linguagem! Pare para pensar um pouco: quem mais nesse Brasil, tão rico em diversidade, conseguiu entrar na casa de brasileiros de todas as regiões do país, de todas as idades, de todas as crenças, de todos os matizes? Quem mais foi capaz de falar de um modo que não apenas era fácil de entender, mas que também prendia a atenção de quem o ouvia falar, fosse a maior das bobagens, fosse o assunto mais sério possível?

 

Quem mais foi capaz de falar uma língua compreendida igualmente por alguém do interior do Piauí e por alguém lá no Rio Grande do Sul, lugares com falas tão distintas? Quem mais foi capaz de entreter com o mesmo zelo uma criança, segundo Vinicius de Moraes, público mais difícil de falar ao coração, e, no segundo seguinte, entreter o jovem, de interesses tão difusos, depois o adulto, que só queria espairecer, e, por fim, o idoso, saudoso e feliz por se ver atingido na fase que ninguém mais se interessa por ele? Quem mais deu voz a tantos desconhecidos, esquecidos e até rejeitados pela sociedade? Quem mais foi capaz de eternizar tantos bordões? Quem mais foi capaz de eternizar a onomatopeia do próprio sorriso?

 

Professores, escritores, cientistas, políticos, comunicadores, músicos... a meta de todos esses é a mesma: compreender e ser compreendido. Para isso, precisam da linguagem! Quantos desses passam anos a fio estudando para conseguir um ou outro momento raro em que tenham realizado essa tarefa de compreender o seu público e por ele se ter se feito compreender? Fernando Sabino, um dos maiores escritores de nosso país, dizia que o maior elogio que podia receber era quando lhe diziam que suas obras eram fáceis de entender.

 

Lembro-me de que, quando soube que o Bob Dylan havia ganhado o prêmio Nobel de Literatura, estranhei demais. Fiquei: como assim dão um prêmio que se refere ao uso da língua para alguém que não é escritor? Hoje, oito anos depois, entendi perfeitamente! O melhor artista da linguagem é aquele capaz de usá-la para que os outros se sintam envolvidos e representados nela e por ela, é aquele cuja palavra é um pouco a palavra de cada pessoa de uma nação, e que tenha feito isso durante anos, décadas, transformando a sua arte. E só uma pessoa fez tudo isso ao mesmo tempo no Brasil: Silvio Santos.

 

Um dia antes da morte dele, concluí um trabalho acadêmico de uma disciplina do doutorado. A professora da matéria havia solicitado um artigo autoral em que analisássemos o comportamento semântico de um item lexical a nossa escolha. Eu havia escolhido o verbo “criar”. Ao longo dos meses pesquisando, encontrei um sentido interessante desse verbo, o sentido de popularizar, de lançar moda.

 

O primeiro enunciado em que percebi isso era uma postagem com uma foto do Michael Jackson usando uma jaqueta vermelha e embaixo a legenda: “Michael Jackson criou o vermelho”. Aqui “criar” não significa produzir ou inventar, mas indica que Michael Jackson deu visibilidade, estabeleceu a fama da cor vermelha... Não deu tempo colocar no trabalho, mas eu poderia ter preenchido essa lista com: “Silvio Santos criou o auditório em programas de TV”, “Silvio Santos criou a gargalhada”, “Silvio Santos criou a contemplação do passado através da música”, “Silvio Santos criou o respeito às crianças”, “Silvio Santos criou o domingo dos brasileiros”...

 

E o Brasil, tão rico de criações, viu nascer e morrer um Machado de Assis, que criou a nossa literatura; viu nascer e morrer Tom Jobim, que criou a nossa música; viu nascer e morrer Ayrton Senna, que criou o orgulho da nossa bandeira; viu nascer e morrer Pelé, que criou o nosso futebol; e agora viu nascer e morrer Silvio Santos, que, depois de ter criado tanto, agora criou aquele sentimento representado por uma das palavras mais lindas de nossa língua: Silvio Santos criou a SAUDADE.

15 de maio de 2021

Fale de qualquer lugar

Perdemos muito tempo com coisas que, absolutamente, não importam muito. E cá irei eu não ser exceção à regra: perder tempo. Mas, talvez, àqueles a quem esse recado se destina, isso será significativo. 

Fora do meu ambiente profissional FALO sobre muita coisa, das tolices às utilidades públicas. E faço isso somente fora do ambiente de trabalho por julgar que lá é o LUGAR para servir aos que me buscam com a finalidade específica de aprender o que ensino. 

Não sei se ficou evidente, não obstante as palavras em caixa-alta, que o tema desse texto é o tal “lugar de fala”. Também não sei se ficou evidente que esse meu texto se destina apenas àqueles cuja mente ainda encontra-se aberta a enxergar as coisas por outro prisma e não apenas conforme a minoria barulhenta. Para aqueles que já se decidiram, esse texto dirá muito pouco. Aliás, para esses, eu sequer tenho “lugar de fala”. 

Estive tentando imaginar onde e como estaríamos hoje se caras como Sócrates, Aristóteles, Platão, Pitágoras, Euclides, Zenão de Eleia... tivessem que pensar se tinham ou não “lugar de fala” acerca dos temas de que trataram. Pode parecer exagero, mas, graças a caras como esses, nós podemos ler coisas interessantes e coisas asquerosas na internet hoje em dia. Graças ao debate filosófico e, posteriormente, ao debate acadêmico, foram possíveis diversos avanços na humanidade (inclusive a internet). Uma afirmação trivial, pois basta observar, por exemplo, como a troca de ideias e de experiências encurta caminhos, aumenta a velocidade de nosso amadurecimento.

Chegamos, contudo, a um ponto em que, exatamente do debate acadêmico, surgem ideias ditatoriais e tirânicas, que visam, por incrível que pareça, à anulação do debate, o preterimento da troca de ideias e de experiências, a seleção de quem pode falar e do que pode ou não ser dito. Parece um paradoxo que a academia promova essa autossabotagem, no entanto é exatamente a subversão da lógica a base de pensamentos como esse.

Fui expectador de uma discussão sobre a expressão "a situação tá preta", que, para alguns, não pode ser dita por ser racista. Sugeri uma aula do prof. José Luiz Fiorin sobre esse tema (para mim, o maior linguista vivo no Brasil). A exposição do professor era a de que há certos exageros, pois a expressão "a situação tá preta" tem origem na navegação. Trata-se de uma referência às nuvens da cor preta que indicam mau tempo para viagens marítimas. Associar essa expressão a algo racista é, para o professor, ampliar o preconceito e não diminuí-lo. "Ah mas só usa preto para coisas ruins"... Não sei se "nota preta" é algo ruim. Mas, enfim, não é esse o ponto...

(Um breve parêntese: Chico Buarque utilizou a expressão "a coisa aqui tá preta" na canção "Meu caro amigo", em coautoria com o grande Fancis Hime. Será que Chico Buarque foi racista? Enfim, retomemos...)

O ponto central aqui nem é a questão da expressão ou do racismo em si. Quero concentrar os esforços (talvez vãos esforços) à resposta que sobreveio: a de que o professor José Luiz Fiorin, uma das maiores autoridades brasileiras sobre estudos da linguagem, não tem lugar de fala sobre a expressão "a situação tá preta", pois é... branco!

Então, ecce thema! O tal "lugar de fala"... Escrevi há algum tempo um texto sobre uma sentença judicial acerca de uma acusação de estupro de uma influenciadora digital. Recebi de mais de uma pessoa o seguinte comentário: "você não tem lugar de fala". Ou seja: o professor Fiorin não tem lugar de fala sobre aquela expressão linguística porque é branco; eu não tenho lugar de fala sobre uma sentença judicial que envolve uma mulher porque sou homem.

Ignaz Semmelweis, médico do século XIX, foi responsável por uma descoberta que revolucionou a medicina. Num período em que um médico era considerado tanto melhor quanto mais sujo fosse seu avental, Semmelweis descobriu um modo de reduzir significativamente o número de mortes pós-parto: lavar bem as mãos e as roupas que ele utilizava durante o parto. Isso mesmo: um homem fez uma descoberta e influenciou a vida de mulheres porque ele falou algo de que, seguindo os dois "raciocínios" anteriores, ele não teria lugar.

(Pensei em trazer também a descoberta de Claude Veyne Winder, que sintetizou o ácido mefenâmico nos anos 1960, mas algumas pessoas nem sabem para que esse fármaco serve, então pode ser que a questão da irrealidade do "lugar de fala" não ficasse tão clara - ops, acabei de usar outra expressão racista, segundo as cartilhas!)

Meu principal objetivo aqui é o de refletir o seguinte: será que impedir o debate far-nos-á evoluir? 

Alguns professores, no ambiente profissional, aplaudem e incentivam crianças ou adolescentes que decoram cartilhas que ensinam as expressões proibidas (com base nas impressões subjetivas e não na realidade), mas que não sabem citar duas famílias da tabela periódica ou que, se não tiver internet, não conseguem achar um sinônimo para uma palavra de sua própria língua. Essas crianças/adolescentes estão observando a fala do professor não-militante não para adquirir conhecimento, mas para levantar a placa de "expressão proibida" e, caso o professor argumente, rebater com a resposta padrão: o professor não tem lugar de fala. 

Será que é isso que nos tornará melhores? Que nos livrará da subserviência a outros países quando se trata de avanços técnicos e científicos? Com todo respeito aos que pensam diferente, eu só consigo enxergar que a ansiedade, o déficit de atenção, a falta de foco, a desmotivação dessas crianças e adolescentes vêm precisamente do fato de estarem mais preocupadas se estão ou não em seus lugares de fala do que com seus lugares no mundo.

Àqueles que dão "um tempo no ressentimento" e dão "zoom nos pontos em comum", deixo meu apoio a continuarem assim, sem ampliar preconceitos e sem impedir o debate. "Estamos separados e divididos, mas um dia nós seremos a maioria".

11 de maio de 2021

Verdades fabricadas

Estava aqui me lembrando do cara que deixou uma mensagem libertadora dois milênios atrás...  Essa mensagem, ainda tão ignorada, rejeitada e às vezes silenciada, na verdade, é um convite cujo fim é escancarar que nossa pequenez e nossa imundície podem ser convertidas em perfeição quando entregamos nossas alegrias e dores nas mãos de quem nos prometeu a Glória. Essa mensagem, meu caro, não é fabricada pelos realities show e distribuídas no atacado pelas redes sociais. 

Hoje, super atrasados, ex-integrantes de reality show, influenciadores e demais personagens, depois de sua jornada de crescimento midiatizado, viram portadores de verdades, tornam-se alvo de toda a nossa atenção, por meio de entrevistas, peças publicitárias, memes e até filmes que contam detalhadamente sua redenção. Viram, pelo poder cinematográfico da mídia, exemplos a serem seguidos, personalidades históricas, viram repertório a ser utilizado na redação do Enem... 

E assim vamos permitindo que interesses comerciais virem a lente pela qual enxergamos toda a caminhada da humanidade. Vamos reduzindo todo o aprendizado de milênios de experiência humana ao simples lampejo da vida de alguém que está engatinhando no conhecimento de si mesmo. Assim vamos engolindo que aquela pessoa, transformada em outdoor de grandes marcas, vire um modelo de vida a ser seguido. 

De repente, você fecha os olhos e se pergunta por que esse mundo está cada vez mais doente. Se ficar com os olhos fechados por mais tempo, vai encontrar a resposta. Vai encontrá-la precisamente na transformação da Fé em paixão a ídolos fabricados com fins puramente comerciais. Se deixar os olhos fechados mais um tempinho, vai perceber que você é um simples número, você é um mero seguidor. 

Enquanto isso, Jesus, mesmo sendo Rei dos Reis, está aí no seu coração, chamando você de amigo, sendo sua companhia no sofrimento, torcendo piamente pelo seu crescimento, querendo ver você reluzente e não nas sombras de alguém, esperando você na Glória eterna e não preso no contentamento de tão pouco nesta vida. 

Foi isso tudo que me fez lembrar no cara que já cantou esta pedra há tanto tempo: mostrou-nos um caminho a seguir, no qual pedras e espinhos devem ser removidos para que nos transformemos em terreno fértil de frutos que, na hora certa, tornam-se sementes de esperança, único remédio possível da doença mortal que nos infecta e nos rouba a liberdade. Enfim, amigo, jamais se esqueça da “æterna veritas et sapientia quæ nec fallere nec falli potest”.

4 de novembro de 2020

O tal “estupro culposo”

Um pequeno resumo cuja pretensão é simplesmente tentar compreender, pelo prisma da compreensão textual, um texto jurídico debatido em profusão pelo prisma midiático. Essa postagem não se trata de debate jurídico (afinal, não sou jurista), mas de um trabalho de compreensão textual (minha profissão) da sentença que serviu para ver o quanto os brasileiros somos analfabetos em matéria de política.

1) O juiz inicia a sentença resumindo toda a cronologia do processo, apresentando todas as diligências e decisões do caso, o que inclui o deferimento de prisão temporária do réu. 

2) Na fundamentação, o juiz apresenta a lei utilizada como fundamento pela denúncia inicial: 

 "Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009). Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009). § 1 o Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência.(Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009 – grifou-se)" 

 3) O juiz recorre a uma citação de Greco (2017): 

“deverá o agente ter conhecimento de que a vítima é menor de 14 (catorze) anos, ou que esteja acometida de enfermidade ou deficiência mental, fazendo com que não tenha o discernimento necessário para a prática do ato, ou que, por outra causa, não possa oferecer resistência. Se, na hipótese concreta, o agente desconhecia qualquer uma dessas características constantes da infração penal em estudo, poderá ser alegado o erro de tipo, afastando-se o dolo e, consequentemente, a tipicidade do fato.” 

Na prática, a lei deixou aberta uma possibilidade que foi bem aproveitada pela defesa. A possibilidade é a seguinte: a vítima não era menor de 14 anos (tinha 21 anos na data alegada) e sem enfermidade ou deficiência mental (a vítima não tinha essa condição e a incapacidade de oferecer resistência não era de ordem biológica) — exclui-se a primeira parte em que a lei serviria para o caso; o acusado não tinha conhecimento de que a vítima não poderia oferecer resistência — exclui-se a segunda parte da previsão legal. 

4) O juiz trata da definição de vulnerabilidade. Utiliza uma longa citação de Masson (2017), cuja leitura apressada/equivocada/desonesta deve ser colocada em debate: 

"A vulnerabilidade tem natureza objetiva. A pessoa é ou não vulnerável, conforme reúna ou não as peculiaridades indicadas pelo caput ou pelo § 1.º do art. 217-A do Código Penal. Com a entrada em vigor da Lei 12.015/2009 não há mais espaço para a presunção de violência, absoluta ou relativa, na seara dos crimes sexuais. 

No entanto, nada impede a incidência do instituto do erro do tipo, delineado no art. 20, caput, do Código Penal, no tocante ao estupro de vulnerável, e também aos demais crimes sexuais contra vulneráveis. Com efeito, o erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime não se confunde com a existência ou não da vulnerabilidade da vítima. 

[...] Como não foi prevista a modalidade culposa do estupro de vulnerável, o fato é atípico. Esta conclusão é inevitável, inclusive na hipótese de inescusabilidade do erro, em face da regra contida no art. 20, caput, do Código Penal." 

É, pois, a citação de Masson (2017) que remete o famigerado “estupro culposo”, quando o autor está exatamente rechaçando essa possibilidade! 

5) O juiz reitera que “estupro de vulnerável” pressupõe, além da vulnerabilidade (pela idade ou pela condição física/psicológica), o pleno conhecimento do agressor de tais condições. Isso quer dizer que não houve o estupro? Não! Quer dizer que o juiz está dizendo não houve “estupro de vulnerável”, o crime pleiteado pela acusação. 

6) O juiz indica que não ficou totalmente demonstrado (com as provas apresentadas) que a vítima estava impossibilitada de oferecer resistência. 

7) Um trecho importante da sentença é a letra do próprio juiz: 

“não se desconhece que há provas da materialidade e da autoria, pois o laudo pericial confirmou a prática de conjunção carnal e ruptura himenal recente (fls. 764/765), também não se ignora que a ofendida havia ingerido álcool. Contudo, pela prova pericial e oral produzida considero que não ficou suficientemente comprovado que Mariana Borges Ferreira estivesse alcoolizada – ou sob efeito de substância ilícita – , a ponto de ser considerada vulnerável, de modo que não pudesse se opor a ação de André de Camargo Aranha ou oferecer resistência. Para tanto, o exames de alcoolemia e toxicológico (fls. 880/882) apresentaram resultado negativo.” 

Isso significa que é possível dizer que houve a relação sexual e que ela aconteceu com o acusado. No entanto, para o juiz, as provas de que não foi consensual são insuficientes.

8) Em relação às provas testemunhais, o juiz demonstra que apenas a versão da mãe é convergente com a versão da vítima. As demais testemunhas (inclusive as arroladas pela própria vítima) não corroboram os depoimentos da mãe e da filha. 

9) O juiz apresenta a tese de que o testemunho da vítima, por si só, pode sim ser elemento substancial, mas quando esse testemunho é “coerente e harmônico” com os demais elementos de prova, incluindo outros depoimentos. 

10) Uma das bases de sustentação da acusação é a de incapacidade de resistência, gerada por ingestão de álcool ou substância entorpecente. As imagens externas, cedidas pela Polícia Militar, indicam que a capacidade motora da vítima estavam intactas (de salto bem alto, andando normalmente, no percurso externo ao clube). 

11) Segundo o juiz, embora o depoimento de uma vítima de violência sexual seja preponderante, os demais elementos de prova precisam corroborar de algum modo a prova oral. No caso específico, há dúvidas em relação à verossimilhança do depoimento, considerando as provas colhidas. E, como sabido e citado no fim da sentença, “in dubio pro reo”. 

12) A decisão final é portanto a de que não há como definir quem está mentindo, uma vez que a prova oral da vítima só converge com a prova oral da mãe. Todas as demais provas orais e periciais divergem do que foi apresentado pela acusação. 

13) O juiz ressalta que a decisão não pode ser duvidosa, que ele precisa estar 100% convicto para apresentar sua sentença. 

14) Podemos resumir a peça no seu trecho final: “as provas acerca da autoria delitiva são conflitantes”. Isto é, não há como o juiz declarar culpado se ele não tiver elementos que fundamentem a sua certeza de que o acusado cometeu, de fato, o crime.

O resumo da ópera: 

O problema disso tudo é a revolta de alvo errado. Pelo modo como isso foi midiatizado, o leitor mediano (aquele que não vai ler a sentença nem buscar todas as informações acerca do caso, vai se contentar com manchetes e resumos) é induzido a se revoltar contra o juiz e contra o promotor do caso por terem absolvido o cara sob a alegação de “estupro culposo” - que sequer aparece no processo. Quem deveria ser o alvo de nossa revolta? Os parlamentares, cujos projetos vão deixando brechas na lei para que desgraçados saiam impunes diariamente. Talvez o juiz e o promotor do caso tenham feito de tudo para sentenciar o cara, mas se eles encaminham uma decisão e, num tribunal de segunda instância, a decisão fosse invalidada, os dois poderiam responder judicialmente por isso (de acordo com a lei de abuso de autoridade - criada por quem? Isso mesmo: pelos parlamentares).

Para ilustrar, um caso concreto: um dia desses um inseto foi filmado dando socos numa mulher. Descobri que o animal já responde a não sei quantos outros processos por agressão a mulheres, mas está respondendo a todos eles em liberdade... (se ele não estivesse em liberdade, não teríamos visto a cena que vimos) Por quê? Porque no Brasil não há prisão em segunda instância. E por quê? Porque a Constituição deixou a brecha. E onde está o conserto para essa brecha? Deve estar enfiado em alguma parte do corpo nada esguio do presidente da Câmara (Rodrigo Maia), que nunca colocou esse projeto pra ser votado.

A análise enviesada analfabetiza as pessoas, que já sabem muito pouco sobre o funcionamento dos poderes da nossa República, sobre legislação e sobre o papel de vereadores, deputados e senadores na consolidação de uma Justiça. Voltamos nossa mira para o alvo errado. E é o verdadeiro problema do brasileiro: observar os problemas sob perspectiva errada faz com que nunca consigamos resolvê-los, só os multiplica.

E, como somos todos Dory (sofremos de perda de memória recente), no próximo dia 15, o eleitor não vai pensar em nada disso e vai votar no candidato que já está há duzentos mandatos no cargo, só porque "ganhou/ganhará" uma coisinha em troca. Ou, tão ruim quanto: vai fazer voto de protesto e colocar algum palhaço na Câmara Municipal. 

14 de agosto de 2015

IX - Luminosidade



"Uma luz que não produz sombra..."

Toda luz precisa servir para algo: ser clarão em profunda escuridão, ser guia em caminho opaco, sinalizar um ponto almejado, tornar visível um ponto que não se vê, apontar para algo... Existe uma centelha divina dentro de cada coração e, por isso, podemos todos ser luz. Mas, é claro, nem todos sabem o que significa e muito menos como é ser luz.

Brilho bom é aquele que suavemente lhe aponta o caminho ou o objeto que se quer ver. Se a luz está muito forte, há saturação – um fotógrafo sabe bem a importância da luz: não pode ser demais nem de menos. Brilho suave ilumina de verdade. Brilho excessivo cega. Moderação sempre.

Brilho bom também é aquele que, sendo o objeto a própria fonte de luz, brilha a tal ponto de nos permitir ver os mínimos detalhes, aqueles escondidos de propósito, para que apenas os olhares atentos os alcançassem. Como quando estamos diante de um monitor: se houver muita luz, nada enxergamos e ainda podemos sentir graves desconfortos; se houver pouca luz, vemos mal e nem nos damos conta das ricas miudezas que ficamos sem conhecer. Brilho bom não toma luz emprestada para brilhar mais do que o brilho natural, afinal os únicos bons empréstimos são os de livros, quando você é o locador.

E ainda, brilho bom é aquele que não ilumina a si próprio, aquele que serve para apontar para algo. Quando o alvo é a própria fonte, algo vai muito mal – é preciso partir de um ponto para chegar a outro. Escapar da inércia, da estagnação. Esse brilho que aponta anuncia algo grande, maior que a própria fonte. E a verdade é que a meta certa de todas as luzes deveria ser só uma. Infelizmente muitas luzes distorcem, outras saturam, outras, por egoísmo, emitem pouca luz... Enfim, a maioria das luzes acaba sendo problemática em relação à meta. Obviamente, algumas vezes o problema não é a luz em si, mas os olhos de quem segue a luz – iluminação e os olhos do receptor precisam gerar um casamento perfeito, é o par – nem só um, nem só o outro. No fim das contas, o encontro das luzes também depende do projetista.

Parece, então, que encontrei a luz que emite o brilho certo. Como a Lua (até no nome), reconhece que o brilho não é seu próprio, mas dada por uma luz ainda maior. Como todos mereciam ser, aponta com carinho um caminho a seguir, caminho descoberto a cada dia sob a guia do Amor. Como eu precisava, me mostra que eu também sou luz, que também tenho essa centelha divina, que também aponto caminhos e que também ilumino escuridões. Como ninguém é capaz de merecer, é luz com brilho exato, sem excessos, sem ausências, sempre presente, sempre disposta, sempre fiel. Como luz que há de ser eterna, aponta para Deus e leva para junto dEle por meio do sorriso, por meio da dignidade e da liberdade de filha, de irmã, de amiga, de mulher errante, porque humana, e perfeita, porque divina.

É, pois com a luz que encerro, já que jamais serei de capaz de demonstrar e listar todos os atributos do Um Amor. Obrigado por ser única, concreta, livre, incompleta, regular, impecável, imprevisível, disponível, luminosa e todas as outras coisas que um dia, se Deus quiser, serei capaz de transformar em signos linguísticos. Obrigado por me fazer sermos nós. Obrigado por nos fazer sermos mais. Obrigado por ser O Amor.

VIII - Disponibilidade



"Tudo bem, seja o que for, seja por amor às causas perdidas"

As escolhas sempre nos guiam a algum lugar, às vezes bom, às vezes nem tanto assim (para ficarmos num eufemismo, já que a vida deveria ser mais eufêmica) e eu louvo Um Amor porque suas escolhas demonstram uma escolha: pela disponibilidade.

Estar disponível é para poucos porque a maioria não tem disposição para isso. Outros tantos acabam confundindo e achando que disponibilidade é estar pronto a qualquer hora para fazer qualquer coisa. Não é bem assim. Disponibilidade é estar disponível para o que, depois de ponderações diversas, de fato vale a pena. Muitos acabam nem pensando se aquilo para o qual delegam suas forças é ou não uma escolha sábia.

As causas perdidas a mim parecem ser aquelas que, de fato, devemos estar disponíveis. Inúmeras dessas causas existem por aí, e o número delas só aumenta. Tradição, responsabilidade, compromisso, disciplina, doação, tudo isso são rosas vermelhas num deserto de sal. A solidariedade tem se resumido a datas comemorativas, a ações visíveis e sob poderoso marketing.

Amar Um Amor é descobrir que porque as causas são perdidas é aí que elas são inspiradoras. Na verdade, o Um Amor é, humildemente e sem alarde, detentor de poder extraordinariamente formoso: o poder de transformar as causas perdidas em causas ganhas, mesmo que apenas pelo fato de terem sido defendidas.

Uma habilidade aqui e uma acolá, todas compõem um ser, mas o que seriam todos os dons, todos os desejos e os sonhos de um coração se não fosse a disponibilidade, se não fosse o estar aberto à maravilhosa missão de participar da brincadeira levemente séria e exageradamente feliz que é a vida, essa ciranda, essa brincadeira de roda. Somos duas das mãos na roda, somos duas das crianças da ciranda, somos duas hélices do moinho, somos duas cordas do violão... O que seríamos nós se não estivéssemos disponíveis, de prontidão para o amor?

Toda a gratidão do mundo a quem, pela disponibilidade, beija e abraça, chora e ri, briga e brinca, aprende e ensina, dá força e freia, ama e é amada. Só há uma que é assim, não há mais no mundo, é específica, determinada, definida, é o Um Amor.

VII - Imprevisibilidade




"Aprendi contigo a navegar em qualquer tempo, qualquer mar.
Aprendi contigo a desarmar as armadilhas do caminho..."

Ah a imprevisibilidade do Um Amor... É preciso colocá-la nesse rol de características desse antiobjeto de estudo que é o Um Amor.

Bem, para alguns, imprevisibilidade é o atributo que alguém ou algo possui de realizar ou ocasionar coisas inesperadas. E aqueles que assim o são realmente dão um pouco de trabalho. O ser humano precisa ser um pouco aberto, demonstrar que, além de falho, toma atitudes prováveis. Se caímos sempre na imprevisibilidade dos nossos movimentos, corremos o grande risco de subjugarmo-nos à nossa própria imprevisibilidade e tornarmo-nos desconhecidos de nós mesmos.

Claro que ser um livro aberto é problemático, uma vez que nem todos os que se dão a nos conhecer possuem a chave de leitura e, com isso, o livro acaba sendo deixado de lado, não por não ter nada a oferecer, mas porque o outro não estava preparado para lê-lo naquele momento. Mas acontece que existem pessoas para quem a chave da leitura foi dada e para essas pessoas a imprevisibilidade faz todo o sentido do mundo.

Não é aquela imprevisibilidade do segundo parágrafo, aquela é um extremo. Nem me refiro à total previsibilidade do início do terceiro, ela é o outro extremo. A virtude está no meio! O negócio, então, é saber ser um livro. Ser improvável como um, mesmo que o leitor, quando é esperto, antecipa acontecimentos e acerta aqui e ali. Mesmo assim, mesmo sabendo os próximos eventos que acontecerão no próximo capítulo, o leitor fica curioso, motivado, apaixonado a cada página e segue lendo, sem se prender a suas próprias expectativas, mas se deixando conduzir pelo que texto que, segundo o que vai descobrindo, vai sendo escrito à medida que vai passando a vista.

Imprevisibilidade é o dom de quem sabe viver sem se prender às expectativas, quer suas, quer dos outros. Talvez alguém levante a seguinte questão: então ser curioso é uma inconveniência... Bem, a curiosidade é um alimento. Move a vida! É ela que nos faz transformar até mesmo o mais presumível em algo inesperado – tudo para escapar da inércia: o mesmo beijo, o mesmo olhar, a mesma vida vira vida nova a cada linha lida.

E sabedoria tem aquele que, como o Um Amor, sempre tem vontade de viver cada dia essa imprevisibilidade plausível e nada assustadora, pelo contrário, cativante e úbere.

VI - Impecabilidade



"É impossível repetir o que só acontece uma vez,
é impossível reprimir o que acontece toda vez que alguém acorda..."

A sinceridade não é um atributo. É, muito mais, um órgão físico presente em alguma região dos miolos da cabeça. O esforço humano, então, não é de ser sincero, mas sim de não ser sincero sempre. E é aqui que entra a outra característica do Um Amor: a precisão.

Não sei se os demais seres humanos dão valor como eu (se é que eu sou mesmo um ser humano) a precisão – nomeei-a no título de “impecabilidade” e talvez não seja um sinônimo exatamente perfeito (na verdade, a perfeição dos sinônimos é um engano, tolice, ingenuidade, ilusão e outros tantos sinônimos), talvez daqui para o fim eu mostre a união dos campos semânticos. Dou muito valor e eu acho que não consigo explicar bem o porquê. Tentarei.

Qualquer pessoa já se deparou com uma situação em que os sentimentos todos se misturaram e, de repente, algum sobressai. Abole-se com isso a precisão. Todos os sentimentos se manifestam ao mesmo tempo e nenhum coopera para o bem daqueles que o tem – como o amor coopera sempre. É até natural que, devido à obscuridade de algum momento, não se saiba bem o que fazer com os sentimentos que se tem. Deixa-se um comandar os outros e perdem-se as estribeiras...

É por isso que fica raro encontrar a precisão. Há um ponto que se deve buscar (chamam atualmente de ponto de equilíbrio, revisitando a proposta aristotélica de que a virtude está no meio) e é uma busca sem fim porque, de fato, é difícil encontrar uma coisa tão espremida: força de um lado delicadeza do outro; falta versus excesso; overdose versus abstinência... A precisão é precisa, necessária (aqui o sinônimo ajuda!). E eis que aparece o porquê da impecabilidade no título: para ser impreciso há que ser impecável na hora do encontro, isto é, o momento em que é exigido de si a decisão entre uma reação ou aquela diametralmente oposta.

À hora do “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” quase ninguém sobrevive. É a sinceridade, descontrolada, a responsável por essa não sobrevivência. Na hora H, no dia D, muita gente acaba sendo sincera a ponto de, ou explodir e destruir tudo ao redor, ou correr e escapar da luta, fugir com desonra. Costumo ser esses últimos. Mas o Um Amor tem doutorado em imprevisibilidade (essa é outra característica ainda a ser apresentada) e sempre mostra a precisão. Imprevisível porque ninguém espera que um ser humano, em vez de puxar o gatilho ou de correr da briga, mostre o que de fato precisava ser feito. O Um Amor é impecavelmente preciso. E isso, mais que raro, é sobrenatural.

No meio da força e da delicadeza, do exagero e da escassez, da solidez e da flacidez, da razão e da emoção (substantivos eternamente briguentos) deve morar algo, esse algo, me mostrou o Um Amor que é a autenticidade e o amor pela objetividade na decisão. Precisão. Algum dia serei impecável em minha descrição e hei de demonstrar exatidão no relato dos fatos para comprovar a teoria. Mas não estou fazendo experimento, mas formulando hipóteses. E minha hipótese principal nesse ponto é que o Um Amor é Um Amor porque é impecavelmente precisa, embora tenha como qualquer ser humano tantos sentimentos em sua vida.

Que o mundo encontre a precisão como eu precisamente encontrei. E, sabe, eu não precisaria ser preciso com mais nada... já fui preciso ao me eleger amor do Um Amor.

V - Regularidade



"Encontrei, depois de tanto tempo,
em vidas passadas, em noites passadas em branco..."

Toda teoria deve partir de regularidades e essa não é diferente. Há uma periodicidade de sensações diversas, embora, às vezes certas sensações apareçam fora de ordem (responsabilizo o caos constante naquilo que é ordinário à batida das asas da borboleta... graças a ela acontecem os furacões no Japão!). É como escreveu o sábio “há um tempo certo para tudo debaixo do sol”.

Há o tempo de não ter saco para nada – inacreditável como esses dias são inúmeros. Já foram muitos os momentos em que, mesmo juntos, parece que a única coisa que apraz é ficar sentado olhando para o nada, tentando encontrar algo que satisfaça a vontade de nada fazer. Algum dia ainda havemos de perceber que é os dias de moleza, quando não produzimos nada, que mais nos unem. Talvez sejam eles os responsáveis pela prevenção de sobrecarga no sistema!

Há o tempo de engordar – me assusta esse tempo. Dizem que um homem sem barriga é um homem sem história. Acabo estendendo esse jargão à mulher, por isso faço o Um Amor comer tanto chocolate. Bem, questões médicas à parte, não me parece de todo equivocado supor que a vida foi feita mais para se comer do que para se viver. Não comer a vida, mas comer as coisas gostosas que por causa dela fazemos. Prova de amor maior não há do que dividir o último pequeno pedaço de chocolate (que me perdoem os olhos rijos por essa referência católica) e já demonstramos tanto esse amor. Deixando os exageros de lado, acho que engordar junto faz parte de um processo constante de saboreio das coisas deste mundo sem fim.

Há o tempo de brigar – tem que ter, né?! Antes eu tive tanto orgulho de passarmos inúmeros meses sem saber o que era briga, na verdade, ambos tivemos esse orgulho. Isso porque mal sabíamos o quanto ainda precisávamos crescer. Normal. Mas somos incompletos, não podemos ter certeza do que nos faz bem, devemos apenas averiguar se o que sentimos é mesmo bom e se não pode melhorar. Talvez as brigas sejam como as pancadas que o escultor dá na pedra para que ela fique da exata forma pretendida, ou mesmo como um desfibrilador num coração inerte... É isso! Inércia! Há sempre que se fugir dela! É sempre preciso algum para espantar a primeira lei do sir. Isaac. A rotina faz parecer que é natural tudo amornar. E é verdade, quentura demais é prejudicial. Mas esfriar jamais. E só se escapa da inércia com sutilezas, sutilezas tais que não são passíveis de receituário, é instintivo.

Há tempo de voltar – relembrar pensamentos, reviver fatos. Esse período, que acontece sempre que bate a nostalgia, nos dá gás renovado para, mesmo com a cabeça lá nas nuvens, manter os pés no chão, comprometidos muito mais do que com o futuro, mas também com o passado. Cometem-se muitas injustiças nesse planeta arredondado porque o passado é julgado como algo que já passou e que, por isso mesmo, pode ser modificado e contado do jeito que se quer. Engano monumental. O passado é a margem e a calha do rio: quando ambos sofrem maus tratos, o rio é assoreado. Li que o assoreamento não mata o rio, mas o faz transbordar e causar estragos ao redor. Mesmo que morra, o rio acaba pirando!

Talvez haja até o tempo de dar um tempo... Mas se ele realmente houver, que seja um tempo em que se esteja junto, para que ele passe sem vê-lo passar.

Há tempo para discordar, há tempo para defender, há tempo para badernar e há tempo para se viciar pelas coisas do outro – o certo é que só há uma coisa em comum em qualquer tempo que houver: o fato de ser O Tempo do Um Amor.

É por isso que nada pode ser menos que lindo quando é dia cinco. Dia que volta o ciclo, quando tudo está no seu lugar.

O Um Amor é regular e não inerte. Milagre possível para um risolhar de quem é o Um Amor.

IV - Incompletude




"Só você sabe quem eu sou,
só você sabe como é..."

Provavelmente consideram característica problemática aqueles mortais que não se reconhecem como tal o fato de que o ser humano é inerentemente incompleto e passa uma vida toda, às vezes, para descobrir-se assim. E é incrível como a raridade do encontro com alguém que tem essa consciência é capaz de deixar qualquer um sem saber o que fazer ou falar.

Este que escreve não é qualquer um, embora não seja alguém totalmente preparado (ninguém o é) para as emoções que a vida desvela. Mesmo assim, não escapei do encanto e da sensação extraordinária que sinto sempre que participo de uma acareação entre a arrogância da humanidade e com a incompletude do Um Amor. São sutis essas ocorrências, mas, por serem sutis, são indeléveis: não há como esquecer eventos em que uma mulher, de pouca idade, tem consciência de que muito lhe falta para chegar a um ponto que ainda não será o final.

Claro que não poderia ser o pensamento de todos os homens – muito menos das mulheres. Pessoas assim são escolhidas a dedo pelo Projetista. Todo ser humano nasce incompleto... e assim também morre. Quando criança, vamos descobrindo universos de coisas, muitas dessas coisas estavam dentro do próprio ser, mas precisava de um gatilho para que desabrochassem. E, já quando criança, uma dessas coisas que se dão a aparecer é a arrogância. Qualquer um é capaz de lembrar alguma situação em que se sentiu completo, capaz de tudo, mesmo criança. A diferença é que, quando criança, ao cairmos, aprendemos o que fazer para não cair mais. A idade chega, trazendo junto a ignorância da certeza de que existe um ponto de chegada. Sem se dar conta, vamos nos dando conta que as coisas das quais vamos nos apropriando vão se somando até preencher todos os espaços vazios. Pura arrogância!

Somos incompletos e sempre seremos. Nunca temos consciência disso. E, por incrível que pareça, há sempre uma razão para acreditarmos no divino. É divino que alguém tenha consciência da própria pequenez e de que a vida é uma eterna busca, mesmo quando pensamos que chegamos ao fim. Se não fosse sempre busca, um dia pararíamos e não teríamos para onde ir.

O Um Amor me mostrou que é possível saber já nessa vida que ela é incompleta e que a completude nos dizima aos poucos. Enquanto todos os demais se acham paladinos da vida, ela sabe muito bem que ela é só um ser pequenino neste mundo, quase uma hobbit (embora seja ela quem imagino quando penso em Lúthien, personagem mais bela do universo criado pelo meu filólogo favorito). Impossível não se apaixonar por tamanha sabedoria.

É a pseudocompletude que engendra a sensação de completo vazio. Ao mesmo tempo, é a grandeza de admitir a própria pequenez que traz uma sensação de estar-se cheio de tantas coisas: paz, alegria, sonhos... Combustíveis da eterna busca!

É preciso agradecer por isso. É raro. Único à minha vista. Por isso é Um Amor. 

III - Liberdade



"Meu coração é um porta-aviões 
perdido no mar esperando alguém pousar"

A tendência que o mundo tem é de acreditar em tudo ou de acreditar em nada. Ingenuidade e ceticismo são dois lados de uma moeda negra pela qual não podemos brigar.

Advogo que não podemos ser certos de qualquer coisa, afinal os dias recomeçam todo dia. Ingenuidade e fé cega caminham de mãos dadas. Ceticismo e dureza de coração morrem de pés juntos. Sobre o amor doentios ambos.

A ingenuidade no amor leva ao nada da mesma forma que o nada leva a lugar algum. Quando se acredita em tudo e a tudo dá-se o nome de amor já não é mais um risco, mas é factual a direção infeliz que se há tomado (pedi essa construção bem aqui do espanhol, não sei o que acho dela no português!). Nem todo latido de cães na alta madrugada é contra um perigo, pode ser apenas um teste, ou solidariedade – já percebi que os cachorros são solidários com seus demais espécimes, latem com a mesma força quando um puxa o coro. Todo cuidado é pouco para não se crer no incrível.

O ceticismo no amor é igualmente doloroso e, como a primeira, leva para o mesmo nada do outro, demorando o mesmo tanto de tempo para que esse nada se revele. Embora seja compreensível que alguns corações se fechem a fim de manter resguardo após pomposa treva, é questão de tempo perceber que uma porta sempre trancada guarda alguma coisa valiosa! Todo cuidado é pouco para se crer no incrível.

Entre ingenuidade e ceticismo está a liberdade. E foi essa liberdade que gerou o Um Amor. Sagacidade é a velocidade que se tem de compreender o quanto algo é necessário na vida e humildade é reconhecer a hora certa de descosturar a roupa toda para tecê-la do início com mais atenção, mesmo que seja preciso mudar a corda linha. E o Um Amor foi sagaz e humilde: deu fim ao que não começou e começou o que não pressupõe fim. Manifestar a liberdade é algo que requer tempo para que se compreenda que às vezes o que estivemos a chorar pode continuar nos fazendo chorar, mas de rir, sem deboche, graças à certeza de que se pôde ir além!

Amor mesmo é quase dor, mas não maltrata. Amor que se preza chora, mas não mata o riso. Amor é sempre verdadeiro, nunca é pela metade. Sentiu dor, chorou, duvidou, mas nunca desistiu porque foi livre para viver, exonerar velhos limites e compreender os novos e, por fim, tornar-se o Um Amor. E foi livre para libertar o Um Eu.

II - Concretude



"A gente vive assim: sempre acabando o que não tem fim..."

Sempre me intrigou ao extremo o fato de que “nuvem” é um substantivo concreto. Ele é tão leve. Tanto o significante quanto o referente. Quase não fazemos esforço algum para pronunciar essa palavra. E o que dizer das nuvens lá do céu. Na verdade, a meteorologia me refutaria, sem muito esforço, dizendo que as nuvens são sim muito pesadas, logo eu devolveria fazendo a a seguinte pergunta: o que pesa mais: um quilograma de nuvem ou um quilograma de cimento? Para além da palavra “nuvem” em si, me intriga muito mais a subclassificação dos substantivos em concretos e abstratos. Nessa história, amor virou substantivo abstrato. Como assim, se amor é uma palavra tão pesada, forte, indestrutível e palpável? Não entendo vocês, normatizadores!

O Um Amor, diferente do amor que é substantivo abstrato, é substantivo próprio e talvez seja por causa das propriedades desse nome próprio que eu me confunda tanto com o que venha ou não a ser o amor abstrato.

Parece-me que abstrato é o amor sem peso, o amor que não tem gravidade, que vive nas nuvens. Opa, as nuvens são concreto! Meu ponto é que amor sem agrura sofre de sobrecarga iluso-aparenciológica. Explico: não requer tanta busca o vislumbre de abstrações tais que nos fazem pensar que o nosso conceito de amor é equivocado. Pessoas cuja aparente felicidade é a mão esmagadora de um estúpido alardeio.

Que me faz julgar o amor dos outros? Bem, não julgo o amor de ninguém, julgo a abstração desses amores. Amor não é um riso sem fim nem uma alegria indescritível. Amor não é nada que deixe a boca sem dizer palavra e as pernas bambas. Isso pode ser fome, êxtase ou tantos outros sintomas. Amor é concreto. Duro. Forte. Inconcusso – pra usar um adjetivo que eu ainda não usei.

Para ser inabalável há que ser pesado e de ter o couro grosso, e para chegar aí é preciso muito choro e ranger de dentes. São 7 os infernos de Dante e depois deles a vitória. Alguém, que eu não vou lembrar quem, disse que se começamos a atravessar um inferno, não podemos parar até chegar do outro lado. Calma, calma, calma! Não estou dizendo que o amor é o inferno, estou dizendo que amor é mais concreto que qualquer sofrimento.

Um nó feito na garganta por uma tristeza é algo concreto. Os olhos inchados e cansados pelo choro são concretos. A dor no peito por uma queda monumental é concreta! E amor é ainda mais concreto que tudo isso.

O amor demanda rigidez, afinal é uma construção, necessita de alicerce! Alicerce abstrato não sustenta amor concreto!

Já elenquei meu objeto de estudo e agora instancio o meu método: meu método é o da observação da concretude do Um Amor para bem estudá-lo. Para o plano das ideias devem ficar passado e futuro, por isso essa observação é sincrônica. E hipóteses, pelo seu teor abstrato, também são dispensáveis. E dispensáveis também hão de ser as incontáveis coisas que desservem, que não somam, pois não pesam, que não engrandecem, pois não sustentam. Amor abstrato é coisa da esquerda! Nem o ar é impalpável, imagine o amor que fá-lo movimentar-se...

I - Unicidade



"Sempre que eu preciso me desconectar 
todos os caminhos levam ao mesmo lugar..."

Essa história de “o Um Amor” é claramente uma referência ao anel destruído por Frodo (ou seria pelo Sméagol) na Montanha da Perdição, terra inóspita a sudeste do Condado. Ok, parei! O caso é que é interessante esse uso definido do artigo indefinido. No caso do amor, então, faz todo o sentido do mundo.

Bem, no inglês, língua em que meu filólogo favorito escreveu a obra do milênio, diz-se “the One Ring”. Essa língua, diferentemente do português, diferencia o numeral do artigo indefinido. Ambos têm a mesma forma na última flor do lácio, “um”, enquanto no inglês há o “one” para o primeiro e o “a/an” para o segundo. Então, aquilo que serve para dar ideia de unicidade no inglês acaba indeterminando e indefinindo em português. Evidentemente, essa operação de indeterminação não se verifica, uma vez que sabemos bem a qual anel estamos nos referindo quando dizemos “o Um Anel” (as iniciais maiúsculas dão o último golpe na possível ambiguidade). Mas vale a pena divagar um pouco sobre a (in)determinação do amor.

O amor de qualquer um é indefinido até que se defina, indeterminado até que se determine, não específico até que se especifique. Estou usando os três termos como sinônimos para algo que eu tenho medo de que minha argumentação faça confundir com destino. Não quero entrar na pergunta-sem-resposta e resposta-sem-pergunta se há destino e se amores são predestinados, contudo não é pouca audácia dizer que muito mais do que o amor com o qual sonhei é tão menos extraordinário o amor com o qual nunca sonhei.

É muito fácil ser surpreendido: a imaginação antecipa coisas e essas antecipações são facilmente superadas ou sucumbidas. Às vezes o que acontece é mais do que se imagina, às vezes é menos. Nunca é a mesma coisa. Embora a mente seja a placa de vídeo mais perfeita que existe, a materialidade dos fatos observados a olhos nus e sentidas a corpos unidos é um ponto decisivo para a construção final da sensação. E parece que o tempo é o mestre de obras! O Projetista não cabe nessa teoria, mas é a Ele que precisamos saber agradecer.

Não resta, ou ao menos não deveria restar, dúvida de que há um certo embaralhamento no começo das coisas até que o amor faça algum sentido. Na verdade, nunca o compreendemos 100%, afinal somos humanos e talvez uma das coisas que nos defina como tal seja o fato de, mesmo não compreendendo, continuar tentando compreender o que é o amor. Se fica alguma dúvida sobre a hora certa de amar e de chamar algo de amor, é porque estão sobrando certezas numa terra onde há descoberta todos os dias. Para amar há que se indeterminar primeiro, aprender a dizer “não sei’, conformar-se que o que se sabe é pouco, indefinido, fragmentado. O amor é cola que há, um dia, de aglutinar todos esses fragmentos.

É, então, que parece inteligível uma das falas de Gandalf a Frodo: “há outras forças agindo neste mundo, além da vontade do mal. Bilbo estava destinado a encontrar o anel e você também estava designado a possui-lo. E esse é um pensamento encorajador”. Há alguma coisa que faz duas entidades serem unidas, assim o que é aparentemente indeterminado aos poucos se revela algo determinado desde sempre. O que antes nunca existiu passa a existir desde e para sempre. Não faz muito sentido, a princípio, mas toma contornos críveis quando pensamos que não pensamos em antes do começo e depois do fim do amor. Delegamos toda a nossa espiritualidade para a tarefa de destituir a máxima de que todo começo tem seu fim, considerando que, na verdade, não existe começo e que o que há é o que sempre houve.

Mais uma contradição se interpõe aqui e, com ela, eu termino essa parte: se é indeterminado para determinar-se, sendo que sempre foi determinado, como posso propor uma Teoria Geral do Um Amor? Bem, aqui é preciso ler “o Um Amor” da mesma forma que “o Um Anel”: é um único, um apenas. E é geral porque as teorias gerais devem explicar coisas universais... E esse Um Amor é o Universo que me contém. Exatamente por isso é impossível dizer que ele é meu precioso, pois eu é que pertenço a ela. A Teoria é Geral do Um Amor, meu antiobjeto de estudo aqui, então, se chama Amanda: gerúndio do Amor.